sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Moléculas da Inquisição

Olá! Nesse post falarei um pouco a respeito das moléculas que direta, ou indiretamente, contribuiram para a caça as bruxas, e a desgraça de muita gente.


Bruxa! Bruxa! Bruxa!


Antes de 1350, a bruxaria era vista como algo normal, fazer feitiços para proteger safras e pessoas, encantamentos para prover e invocar espíritos era algo comum. As bruxas so eram condenadas caso ficasse provado legalmente, pela vítima do feitiço, o mal que a bruxa lhe causou. Caso a vítima não conseguisse provar, tornavam-se ela própria pacível de punição, e ainda arcavam com os custos do processo. Assim evitava-se acusações em vão. A bruxaria não era uma religião... Nem nada, somente era algo que fazia parte do folclore.


Mas, em meados do século XIV, houveram mudanças... O cristianismo não se opunha à magia, desde que fosse sancionada pela igreja, e tida como milagre,  porém, quando feita fora da igreja, era considerada obra de Satã. A inquisição, um tribunal criado por volta de 1233 para lidar com hereges, expandiu suas ações para lidar com a bruxaria, depois que os hereges haviam sido praticamente eliminados, a bola da vez eram as bruxas! Pois eram fontes possíveis de ganhos para os inquisitores, que partilhavam as propriedades e os bens confiscados com as autoridades locais.


O berço de Judas
Esse crime era considerado tão horrendo que por volta do séc. XV, as normas do direito não se aplicavam mais a julgamentos de bruxas, uma acusação isolada era tratada como prova! A confissão sem tortura não era válida.


No auge da paranóia da caça as bruxas, por volta de 1500 a 1650, quase não sobrou mulher viva em algumas aldeias da Suiça, em certas regiões da Alemanha, aldeias inteiras foram para a fogueira. Na Inglaterra e na Holanda a tortura não era permitida sob leis inglesas, embora suspeitos de bruxaria fossem submetidos a prova da água. Amarrava-se a pessoa e jogava-a num poço, as bruxas flutuavam, assim eram resgatadas e levadas a forca (!!!), as que afundavam e se afogavam, logicamente morriam, mas eram absolvidas da acusação de bruxas, um alívio pra família, já pro acusado...


No séc. XVIII a execução por bruxaria cessou, na Escócia em 1727, França em 1745, Suiça em 1782 e Polônia em 1793.
Muitas das mulheres acusadas eram herboristas, competentes no uso de plantas locais para curar doenças e aliviar dores. Muitas vezes forneciam poções do amor, faziam encantamentos e desfaziam bruxarias.


Sim elas voavam!


Ao menos muitas deviam acreditar que sim! Segundo o folclore, o sapo era, depois dos gato, o animal que mais acompanhava as bruxas como encarnação de um espírito malévolo. Muitas poções preparadas por pretensas bruxas, continham partes de sapos. 


A molécula bufotoxina, o componente ativo do veneno do sapo europeu comum, Bufo vulgaris, é uma das mais tóxicas moléculas conhecidas.
Estrutura da Bufotoxina


Além da predileção por sapos, outro mito a respeito das bruxas era que elas sabiam voar, geralmente sobre vassouras. Muitas mulheres acusadas de bruxaria confessavam, antes de qualquer tortura, que voavam sobre vassouras por ai, porém, era sabido por elas, que isso não as livraria na tortura! Ou seja, é bastante possível que elas realmente acreditassem que voavam por ai, e pode haver uma explicação química nisso tudo, especialmente, na química dos alcalóides


Em seus unguentos do voo (óleos e pomadas que supostamente as faziam voar), as bruxas costumavam incluir extratos de mandrágora, beladona e meimendro, todas as três citadas na obra "Romeu e Julieta". 


A mandrágora, com raízes ramificadas que dizem parecer uma forma humana, é usada desde a antiguidade como tônico sexual e como soporífico (sonífero). Dizia a lenda, que planta quando arrancada do solo, emitia gritos fantasmagóricos.


A beladona, nome derivado da prática comum entre mulheres da Itália, de pingar nos olhos o suco espremido das bagas pretas dessa planta. Acreditavam que a dilatação da pulpíla daí resultante as tornavam mais belas ( Belladonna, bela mulher em italiano), quantidades maiores de beladona se ingeridas, podem causar um sono semelhante a morte.

O meimendro é usado a muito tempo como soporífero e mitigante da dor (em particular da dor de dente), anestésico e possivelmente como veneno.



Estrutura da escopolamina
As três plantas contém alcaloides muito semelhantes, os principais, são a atropina e escopolamina, ambos utilizados até hoje.


Como é sabido hoje em dia, e devia ser também pelas bruxas é que, a ingestão dessas plantas causa a morte, por isso elas faziam seus unguentos e passavam na pele, onde eram absorvidos. Porém a absorção é é mais efetiva onde a pele é mais fina e há mais vasos sanguíneos, com isso era comum o uso de supositórios vaginais e retais.
Há relatos de que as bruxas passavam os unguentos em suas vassouras, e as passavam nos genitais.


Estrutura da atropina
A explicação química para isso é que, em relatos modernos de efeitos alucinatórios das escopolamina e da atropina, soam idênticos as aventuras das bruxas, sensação de voar, de deixar o proprio corpo, ver coisas girando envolta e ter encontros com feras. O estágio final é um sono profundo, quase comatoso.


Porém, antes de chamarem essas pessoas de loucas, vamos aos fatos...

Era uma época mergulhada em crenças e feitiçaria, não é nada incomum que uma pessoa, sem o conhecimento técnico que temos hoje, acredite estar voando. 



Eram tempos de extrema pobreza, doenças, trabalho interminável e o controle da mulher sobre o próprio destino, era pouco.


Algumas horas de liberdade voando por ai, e em seguida acordando em segurança na cama, deveria ser algo realmente tentador, mesmo tento consequências terríveis, caso descobrissem.


Fungo da Morte


Outro grupo de alcaloides pode ter causado, de maneira indireta, a morte de milhares de pessoas e o sofrimento de muitas, e tais desgraças eram muitas vezes atribuidas a encantamentos e feitiços de bruxas.


Estrutura da ergotamina
Essas moléculas são encontradas na cravagem, fungo que infecta muitos cereais, especialmente o centeio. O ergotismo (doença causada pelo fungo)matava milhares. Um desses alcaloides, a ergotamina, induz abortos espontânneos em humanos e no gado, enquanto outros causam distúrbios neurológicos. Outros sintomas do ergotismo incluiam, convulsões, ataques apopléticos, diarréia, letargia, comportamento maníaco, alucinações, distorção dos membros, vômito, espasmos, formigamento, entorpecimento das mãos e dos pés e uma sensação de queimadura.


Imagine a situação de uma aldeia onde grande parte dela foi acometida pela doença. O armazenamento descuidado e um período de chuvas antes da colheita, causavam a proliferação do fungo, Muitos começavam a cogitar a idéia de que a aldeia fora amaldiçoada, e a culpa muitas vezes caia sobre alguma mulher, ou grupo de mulheres, idosas, sem família, e tão pobres que não tinham se quer dinheiro para comprar farinha! E com isso não eram acometidas da doença. Porém a responsabildiade última de todos os massacres, se atribui a fraqueza moral humana, e não a feitiços...


Sugestão de leitura(onde baseei o post): Os botões de Napoleão, as 17 moléculas que mudaram a história. 

Figuras: Wikipedia.

Fontes: citadas nos hyperlinks.

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